Em muitas organizações, o cuidado com as pessoas deixou de ser apenas um valor para se tornar um filtro carregado de tensões. Nesse cenário, a comunicação passou a ser chamada para cumprir um papel delicado: garantir que nenhuma mensagem provoque desconforto excessivo, frustração ou sensação de perda.
Esse movimento não nasce de má intenção. Ao contrário: reflete um esforço legítimo de proteção, especialmente em contextos de pressão, mudança constante e desgaste emocional. Nos últimos anos, as empresas passaram a se preocupar mais com saúde mental, clima organizacional e bem-estar. A Comunicação Interna acompanhou esse movimento, ajustando tom, linguagem e forma.
O problema começa quando esse cuidado se transforma em receio permanente de dizer o que precisa ser dito. Decisões difíceis, como revisão de metas, corte de benefícios, mudanças de prioridade ou reavaliação de bônus, passam a ser excessivamente mediadas. A linguagem é suavizada a ponto de a mensagem ganhar camadas de amortecimento, na tentativa de evitar qualquer reação negativa.
E é nesse ponto que a comunicação começa a perder densidade. Esse cuidado extremo vai moldando um discurso que evita limite, relativiza impacto e dilui responsabilidade.
Essa dinâmica aparece no dia a dia, no uso recorrente de metáforas, no tom lúdico em demasia e na tentativa constante de “amenizar” qualquer informação que possa gerar desconforto. A forma passa a competir com a mensagem e, em alguns casos, a substituí-la.
Quando a organização tenta eliminar qualquer possibilidade de frustração, a comunicação corre o risco de subestimar quem lê. Parte do pressuposto de que as pessoas só conseguem lidar com decisões difíceis se elas vierem embaladas, suavizadas ou diluídas em linguagem excessivamente mediada.
Aqui vale reforçar um ponto: simplificar não é o problema. Tornar a informação acessível, direta e compreensível é uma responsabilidade da comunicação. O risco está em reduzir densidade e tratar complexidade como algo necessariamente indesejável. Há uma diferença relevante entre facilitar a compreensão e evitar o conteúdo.
Tratar pessoas como adultas também implica reconhecer sua capacidade de lidar com contradições, perdas e desacordos. A vida organizacional não é confortável o tempo todo, e a comunicação não deveria se esforçar para parecer que é. Quando isso acontece, cria-se um descompasso entre discurso e realidade, que tende a gerar cinismo silencioso, distanciamento ou simples desinteresse.
Comunicação madura confia na inteligência de quem lê e no fato de que as pessoas são capazes de compreender contextos, discordar, elaborar e seguir em frente – mesmo quando a mensagem não é a que gostariam de receber.
Nesse sentido, o tom da comunicação diz tanto quanto o conteúdo. Ele revela o grau de confiança que a organização deposita em seu público interno. Revela se a empresa fala com pessoas adultas ou se, por medo de desconforto, acaba tratando-as como alguém que precisa ser constantemente protegido da realidade.
Comunicação existe para dar sentido às decisões, inclusive às difíceis.
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